RABELOS NO DOURO
Nada se encontra mais indissociavelmente ligado à história dos habitantes de Barqueiros do que esta estrada milenária que se chama RIO DOURO.
Cedo o homem descobriu o rio e aprendeu a viver com os seus enormes recursos, estabelecendo-se nas suas margens e fundando pequenos núcleos populacionais. Assim deveria ter nascido a antiga povoação de Barqueiros, cujas origens remotas se perdem para além de qualquer memória escrita.
Ninguém sabe ao certo, quando apareceu a sulcar as águas do Douro o barco que hoje admiramos parado em águas mortas.
Ex-líbris da antiga navegação do "rio de mau navegar" barco desengonçado, e, aparentemente frágil, que desceu do Alto Douro até à Ribeira, enfrentou com a perícia da sua espadela os galeiros do verão e as cheias do inverno, somente foi vencido, não pela sua aparente estrutura frágil, mas pela desigual competição da via-férrea do Douro.Arrais, mestres, marinheiros, cabresteiro e moço, era a tripulação normal de um Barco Rabelo. Carapuça vermelha na cabeça, lenço tabaqueiro ao pescoço, ceroulas cinzentas, pés descalços, camisa remendada aos quadrados, lá desciam do Cachão da Veleira e venciam a carregosa do piar, e demais obstáculos, usando a espadela quase tão comprida como o próprio barco, manobrada com mestria e firmeza do cimo de um "palanque" de cerca de quatro metros a que davam o nome de "apégada".Tão forte era a corrente da Galeira do Piar até ao "ponto da Ripança (em frente ao palácio setencista de Porto de Rei), que eram precisos quatro ou cinco homens para manobrar a espadela. Ao aproximar-se do galeiro, as águas revoltas atraíam o barco que se precipitava na corrente em direcção ao coração do rio. O descuido de um segundo, e a viagem transformava-se numa tragédia.
Mais descansados, mas sempre atentos, lá se desbarretavam à passagem pelo nicho da Senhora da Boa Viagem, protectora dos marinheiros, enquanto lá cima, na velha aldeia de Barqueiros, as mulheres "responsavam" os barcos em dias de tormenta.
No grosso areal da Carregosa do Piar, ou no antigo ancoradouro do Bernado, as mulheres de Barqueiros, desde tempos remotos, aguardavam maridos e irmãos, a cantar e a dançar num ritual de dança pagã. Foi nas vastas areias do Piar (hoje submersas) o berço do folclore de Barqueiros,quando os marinheiros regressavam de "torna-viagem", e paravam na Galeira, infringindo as leis do tempo de D. José, era neste palco arenoso que se diluíam saudades dos dias ausentes. Bernardino Monteiro Oliveira, "Breve Monografia do Concelho de Mesão Frio" (excertos)
Dos tempos difíceis dos ensaios no descampado do Penedo Quebrado, e o espírito folgazão e bairrismo dos habitantes de Barqueiros brotou o folclore que queremos preservar.
Um bem haja aos nossos antepassados.
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